refresco - Flávio Andrade - Photography

Flávio Andrade
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refresco


As praias oceânicas sempre me fascinaram. São intemporais. Como as fotografias a preto e branco que o meu pai nos tirava na praia, com a "RolleiFlex". Recordam-me as cadeiras à volta da mesa para a refeição, à sombra do chapéu-de-sol. As geleiras cheias de deliciosos petiscos, acompanhados sempre pelo suplício que se seguia. As horas intermináveis da digestão, antes de poder regressar à água.
Os corpos desprotegidos à exposição solar. Os fatos de banho, os gelados de cone "fruta ou chocolate", os pregões do "Ervilha" o senhor que vendia as bolas de Berlim, o colchão vermelho, as barbatanas azuis que adorava, os castelos de areia e os refrescos de laranjada.
Todos partilhamos de alguma forma - e habitualmente na mesma época - esta relação afetiva com a praia. Durante as férias, ao fim-de-semana, ao nascer do sol ou ao final do dia. E foi sobre esta relação, como a minha, que decidi debruçar-me e "mergulhar" neste projeto.
Foi um trabalho de três anos, 2012, 2013 e 2014, em várias fases. Em praias de norte a sul do país. O que nos leva hoje à praia é o mesmo que nos levava há 10, 20, 30 anos atrás? Ou no verão passado? O que muda com o tempo? Os comportamentos e hábitos? As modas e as poses? Os corpos e os gestos? Refletem o "ser português" na praia? Existe o "ser português" na praia?
A estas e outras perguntas tentei responder fotograficamente.
"Estou quente. Os pés demolhados na água salgada e a ideia que tenho em mãos, sobreaquecem-me e estimulam-me. Refresco-me".
E, foi assim que parti para a praia com uma câmara fotografia.
Aqui fica um pequeno registo do volumoso número de imagens captadas.

The ocean beaches have always fascinated me. They are timeless. Like the photos in black and white that my father took of us on the beach with the “RolleiFlex". It Reminds me of the chairs around the table ready for the meal under the umbrella shade. The coolers filled with delicious snacks, always accompanied by the ordeal that followed. The endless hours of digestion before we could return to the water.
The unprotected bodies exposed to the sun. The bathing suits, the "fruit or chocolate" ice cream cone, the cries of "Ervilha” (Pea) the man who sold the bolas de Berlin, the red mattress, the blue flippers that I so much loved, the sand castles and the orange made refreshments.
We all share in some way - and usually in the same season - this affective relationship with the beach. During the holidays, the week –end, at sunrise or at the end of the day. And it was about this relationship, like mine, that I decided to focus on my experiences and “tackle” this project.
This was a three-year project, 2012, 2013 and 2014, in various stages. In beaches from the north to the south. What brings us to the beach today is the same that brought us to it 10, 20, 30 years ago? Or last summer? What changes over time? The behaviors and habits? Fashions and poses? The bodies and gestures? Reflecting the "being Portuguese " on the beach? Does "being Portuguese " on the beach exist?
I sought to photographically answer these and other questions.
"I'm hot. My feet are soaked in the salt water and the idea that I have in hand, is overheating me yet encouraging me. I cool down."(Rejuvenate?)
And so I headed to the beach with a photo camera.
And here is a small catalogue of the large number of images captured.

Flávio Andrade



O país do verão, por José Miguel Sardo

É um vasto território desértico, aberto, oficialmente, apenas 3 meses por ano. O tempo suficiente para que os estranhos hábitos e regras em vigor não se propaguem para lá da fronteira dos chapéus de sol. O tempo suficiente para não cair no hábito de ignorar horários e calendários, de saborear, a horas certas, a inconsciente futilidade dos dias úteis em gelados e bolachas americanas. Apenas três meses de época balnear, o tempo indispensável para que ninguém se aperceba que passou de uma rotina à outra, em contra mão ou contra a corrente, desde o primeiro momento em que decidiu tirar o relógio e descalçar os sapatos.  

A praia é o outro lado do espelho e ao mesmo tempo o reflexo, ensolarado, dos restantes 9 meses do ano. É horizonte para o homem que habita num rés do chão, bronzeado para a pálida funcionária pública, terapia de desporto ou de iodo para o sedentário empregado bancário, omega 3 para os carnívoros, tempo livre para os que nunca conseguem ter tempo, atividade para os que têm tempo de sobra. A praia é o avesso e o pesponto das cidades. Terreno de convívio no areal de subúrbio, terra de refúgio na baía selvagem (entre duas arribas) e de conquista na praia exótica perdida num destino distante.

Arrebatada aos pescadores, a praia é uma vitória do proletariado, a recompensa da classe média e um dos privilégios das classes altas.  Um lugar ao sol para quem não quer ficar na sombra, uma sombra para evitar a insolação. Uma democracia balnear, sob o regime das marés que sobem e descem, do nascer e do pôr do sol, dominada pelo mercúrio dos termómetros e vigiada por três bandeiras coloridas que marcam o tempo que passa e o tempo que faz. Um território onde, e porque o prazer prolongado pode sempre provocar angústia - como o sol do meio-dia ou o mar da maré alta – a única autoridade vigente é um (nadador) salvador.

Neste cenário onde tudo tem de ser aquilo que parece, onde as fotografias de férias decalcam pessoas nos postais ilustrados e as fotografias documentais decalcam os postais ilustrados nas pessoas, é raro que um fotógrafo ouse passar por um simples mirone.

Em “Refresco”, o preto e branco é o elemento essencial dessa forma de “nudez” vislumbrada apenas por alguém atento, num ínfimo momento de desatenção, tão curto e diáfano como o famoso "raio verde" do pôr do sol. Sem cor nem outra distração, Flávio Andrade captura banhistas desatentos e despreocupados, aprisiona-os nos seus desejos mais íntimos e mais reprimidos de lazer, sob um sol de chumbo e dentro de um mar metálico. A preto e branco os corpos ofuscados são silhuetas, um buraco escavado na areia transforma-se numa sepultura, um homem e uma mulher dentro de água parecem ter sido abandonados num mar morto, a passeata de um sexagenário torna-se fuga para tentar despistar o olhar de um polícia de choque pintado numa parede.

Na encenação fotografada (e não na fotografia encenada) a areia parece condenada a cristalizar-se em betão fazendo adivinhar, ao longe, uma cidade. O mar torna-se espesso, alcatroado. Só os olhares e os gestos suspensos quebram a estranha melancolia do "negativo" dos dias de praia. Em todas as imagens sopra um silêncio ligeiro como uma brisa de verão, incapaz de despentear a pose dos que não posam para a fotografia.

A praia de "Refresco" é um território que toda a gente reconhece mas onde ninguém se revê. Uma imagem em 24 por segundo de um vídeo de férias. Uma recordação vaga de verão carregada dessa resignação que nos invade nos primeiros dias de agosto e da nostalgia dos primeiros chuviscos de inverno. Um refresco, conservado no congelador, como uma promessa de melhores dias de sol nesse território desértico, aberto, oficialmente, apenas 3 meses por ano.

José Miguel Sardo                
Jornalista   
2012  


150 Inkjet Prints
Various sizes, ED. 3+1AP
Year 2012/14


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